é, eu acho que realmente há um mistério em cada fato. um mistério que confere a cada fato sua peculiar urgência e delicadeza, ainda que cada fato por si mesmo não seja mais do que um fiapo de nuvem, um fiapo de nuvem que se junta a outro fiapo de nuvem e mais outro e vai traçando no ar um desenho que, de um momento para outro, de ovelha pode tornar-se a cara da sua avó ou um coro de anjos dançando no céu. essa plasticidade da vida é o fundamento positivíssimo dessa "desimportância" de todos os fatos: tudo sempre pode ser de outro modo. é ela que oferece o solo fértil para a vontade, seja o ato mais simples ou o milagre. para que amanhã você acorde e, antes mesmo de abrir os olhos, diga: "não mais!".
cada fato se abre para uma infinidade de outros fatos possíveis como um fruto carrega dentro de si uma infinidade de sementes e cada uma delas uma árvore capaz de produzir uma infinidade de outros frutos e assim infindavelmente. por isso, e exatamente por isso, haverá sempre sentido em tudo. um sentido que, quanto mais atenção dermos ao fato, mais profundo e singular ele irá nos parecer.
é como esses mapas do google earth: você começa focando o planeta, depois o continente, o país, o estado, a cidade, o bairro, o prédio e finalmente uma janela em particular que em ninguém mais irá provocar sorrisos e suspiros senão em mim.
repare: minha imaginação não acrescenta nada ao sentido dessa janela, tão igual a todas as outras do prédio. é meu amor que alcança o sentido singular dela que, na verdade, nada tem de subjetivo. pois, mesmo que outros duvidem das qualidades que atribuo a sua moradora, quem poderá dizer tê-la conhecido tão de perto? quem pode então me desmentir?
logo, não é a imaginação que cria o sentido; é o amor que o descobre. nós não criamos o sentido, apenas nos dedicamos a encontrá-lo. o sentido das coisas está nas coisas e nenhum outro lugar - intelectual, físico ou mecânico - é necessário para encontrá-lo além dessa "atenção dedicada" que muito bem podemos chamar de amor.
isso não significa que não iremos nos enganar. muito mais vezes do que gostaríamos, o desejo nos cega e então deixamos de ver o que é e passamos a ver o que desejamos que fosse. sim, não são os fatos que nos enganam. somos nós mesmos que nos deixamos enganar - por arrogância, comodidade, fraqueza... só os erros são genuinamente nossos. a verdade pertence às coisas e nelas repousa mansamente à espera de nosso olhar mais amoroso.
do arquivo oculto que, no momento, poderia se resumir à bela trilha sonora que enche o ar: duke ellington - the unknown sessions. this soundtrack was brought to me by suely. muito obrigado!
todos os dias amanhecem domingo. e só aos poucos cada dia vai tomando sua forma: segunda-feira, terça, quarta, quinta, sexta, sábado. cada um deles têm seu rosto sutil, ligeiramente diferente dos outros, como uma família de irmãos muito unidos. mas, de manhã bem cedinho, todos os dias são domingo.
o quente silêncio da manhã avança devagar, cuidadoso como um gato se esgueirando pelas paredes, um satisfação mais para os ouvidos do que para os olhos. eu mesmo, se me deixo ficar um pouco ao sol, de olhos fechados ou distraídos, logo me sinto em alguma outra cidade, menor, mais calma. vem da infância essa cidade imaginária? sim, reside nessa estranha geografia da cidade onde todos os dias são domingo.
o cheiro primordial do pão perfuma o ar, vindo das discretas chaminés da padaria de outro oculto que, a alguns metros de mim, pratica essa outra forma de poesia. afinal, o que seria da vida sem o consolo de um pão doce?
do café cuido eu. seu aroma é como um hino para o espírito. a chama acende o cigarro e só então me sinto definitivamente desperto para o cotidiano. e começo a deixar de ser domingo...
logo este texto estará sendo escrito. mas agora, o adão que há dentro de mim contenta-se com seu café, atento apenas às formigas. lá vão elas, em cuidadosa linha pontilhada a cortar o branco contrastante do azulejo. as formigas são uma forma de silêncio. símbolo vivo do secreto e incessante enredo do mundo. porque a natureza, de fato, não tem descanso.
no céu, os pássaros passam. vão quase imóveis num vôo muito exato e sem desvio pelos invisíveis caminhos do céu.
fecho os olhos e me deixo ficar ao sol, me alimentando de uma luz que me aquece sem ferir.
formigas, aves e cronistas. pães e palavras. de tudo um pouco se fazem o homem e o mundo.
* * *
e, enquanto escrevo este texto, já na sexta-feira, meu corpo pede o teu com uma urgência que desconhece calendários. quer: único verbo que conjuga com desonesta crueldade. ou seria de uma insana inocência? nem sei...
necessita o corpo, indiferente aos desejos da alma. e são um só, os sonsos. eu, quando deixar de ser, irei uni-los. eu é tudo o que sobra, a separá-los. e vou morrendo, pouco a pouco, no corpo a corpo que reclamam a carne e o espírito.
corram palavrinhas, pelo branco do monitor. corram, em sua trabalhosa vocação de formigas. corram que meu corpo já falha do sentido, vagando muito exato pelos invisíveis caminhos do desejo, esse outro céu mais obscuro. corram para que eu não largue este texto antes do fim - que é como terminam todas as histórias. corram para que ela venha, enfim, começar uma outra história.
do arquivo oculto que fim.
viver aqui e agora. com o máximo de concentração. com o mínimo de palavras. as palavras remetem ao passado ou ao futuro, um tão incerto quanto o outro. o que é o passado? será que ele realmente existe? ou apenas subsiste, como o resto seco do café no fundo da xícara? e é neste resto que se quer ler o futuro? ah, a alma sempre pregando peças em si mesma...
palavras, palavras, palavras. livre-se delas! fixe o olhar em cada coisa. não exatamente os olhos, mas o olhar, isto que está bem no meio da testa. fixe o olhar e tente captar o que há de singular em cada coisa até quase comover-se. sim, até que o olhar consiga extrair lágrimas desses olhos. lágrimas essas que não serão nem de dor nem de alegria. apenas lágrimas de compaixão. lágrimas no lugar das palavras: "eu entendo você."
não, não haverá lágrimas. não ainda. os olhos persistem em ser como moscas velozes. não há um olhar, apenas duas moscas castanhas e velozes, pousando onde lhes parece mais doce e apetitoso. dois olhos varejando, inconstantes e vorazes. dois olhos castanhos e velozes. igual moscas.
livre-se desses olhos, cegos impostores que não sabem que só vêem a si mesmos!
palavras e olhos envenenados de desejo. querer ou desprezar: conspirações sentimentais substitutas que tecem uma rede de segurança para segurar o salto diário no vazio. nunca chega a alcançar o trapézio e a evoluir no ar num desenho previsível, mas que nem por isso deixaria de surpreender a platéia que deseja a emoção. pouco importa. viciado na solitária repetição da queda e no abraço final da rede, atira-se no vazio, consolando a íntima e secreta esperança de voar um dia, com as asas precárias de um ícaro: olhando do alto, a rede é também o mapa do seu labirinto. mas ao abrir mão da queda, imitação do vôo, e do narcótico abraço final, que faz aderir o mapa ao corpo como uma segunda pele tatuada?
voar. para longe, bem longe. voar, voar e voar. fechar os olhos e ver a paisagem imensa, um prazer que dispensa mapas e cálculos. é esse olhar que é preciso pousar sobre cada coisa. e então não haverá mais olhos ou palavras envenenados por velhas emoções cristalizadas. pelo contrário, o calor desse olhar fará escorrer desses olhos uma água límpida, capaz de purificar as palavras e lhes devolver o frescor e o brilho: as palavras voltarão a ser os nomes das coisas.
mas isto ainda não é agora. viver aqui e agora. com o máximo de concentração. com o mínimo de palavras. agora é preciso recusar a queda, a rede, a esperança do vôo e simplesmente alcançar o trapézio e traçar no ar a exata trajetória que o levará ao outro lado. e então descer calmamente até o chão e, para a perplexidade da platéia entorpecida, viver a emoção pedestre de abandonar o circo.
do arquivo oculto trapezista. mais uma vez.
havia perdido o hábito de escrever à mão. nada além de alguns
bilhetinhos e lembretes, palavras dispersas numa letra apressada, quase
ilegível, mais código do que exercício de caligrafia. Mas a esta hora,
tinha de escrever a mão. não tinha como sujar o silêncio com o ruído do
teclado.
a caneta deslizava pelo papel sem pautas. e, em cada variação de letra,
lia a presença de alguém. "este é meu pai", pensou, ao olhar a
semelhança com a letra bem talhada de escriba, redonda e calma, igual.
seu pai. haviam feito em sonho um acerto de contas sentimental.
estranho esse mundo, repleto e intenso, em que há coisas que se
resolvem em sonho.
outro dia, tentou lembrar o verso de um poema e escrevera "caos
sangrento" em vez de "cosmos sangrento", como no original: "não
conseguiu firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura".
não demorou muito a perceber o quanto lhe custava admitir essa
proximidade de sangue e ordem. pensava a ordem como um princípio de
simplicidade e economia que associava à paz. mas era evidente que a
incontestável beleza da vida e do mundo estava permeada de violência.
uma violência vital, sangrenta de seres devorando seres - que à alma
pura talvez chocasse menos do que a violência premeditada dos homens.
mas ainda assim, violência. "que ao menos não seja em vão o sangue que
corre sobre o cosmos: a isso chamaremos de justiça.".
era o correr desse sangue cósmico que fazia o silêncio imenso da
madrugada: raros carros passando, o rumor longínquo de máquinas
invisíveis, o estalar das coisas, uma ou outra voz, fiapos de música,
passos ocasionais de alguém na rua, o vento. até o frio do vento era
som nesse silêncio. "o ressoar da vida repousando velo como se a amada
dormindo fosse" era um verso que tinha de ser escrito à mão. "minha
cama é o mundo e, nela, você é a vida que repousa sob a luz ambígua da
lua", diria á amada, quando acordasse.
em francês, o mar é feminino: la mer. não sei se todos, mas ao menos este silêncio é feminino.
do arquivo oculto analógico.
"ai, a vida passa muito rápido", diz uma mulher numa roda de amigas no momento em que eu cruzo com elas pensando que a única lei universal de onde tudo mais deriva é a lei do menor esforço! obrigado, minha senhora! exatamente porque a vida é finita, tudo que vive se esforça para durar. nada nem ninguém quer acabar, morrer. nem o sol, nem a senhora.
lembro de ter lido que primo levi, poeta italiano que esteve preso em auschwitz, se perguntava por que os prisioneiros não se atiravam nas cercas eletrificadas do campo para diminuir seu sofrimento. sim, por que não se matavam? porque o apelo da vida é mais forte que a dor. porque "enquanto há vida, há esperança".
e só existe uma fórmula capaz de fazer as coisas durarem: obter o máximo de rendimento com o mínimo de energia. nisso se resume a lei do menor esforço, que se faz presente desde a órbita dos planetas e o comportamento dos átomos à exploração do mais fraco pelo mais forte.
portanto não é sem ironia que vejo que o egoísmo é um impulso natural, natural demais, conseqüência direta de sermos finitos. a "não-infinitude", por outro lado, é o preço que pagamos - nós, os que vivem - pela singularidade. só deus, segundo o catolicismo e seus derivados, pode ser, ao mesmo tempo, singular e infinito. "tudo é um" significa não só que tudo vêm de um mesmo lugar e partilha da mesma matéria, mas também que cada coisa é singularíssima e única. existe o semelhante, mas não o igual. por mais que sejam parecidas, duas coisas são diferentes ao menos no tempo em que cada uma surge, em sucessão. enfim, cada coisa é só ela e ela mesma para nunca mais. e, em sua incomensurável solidão, só um desejo a anima: durar - a qualquer custo.
por isso a natureza é tão violenta. por isso o cosmos sangrento afronta a alma pura - para citar outro poeta, o brasileiro mario faustino, em balada, um dos poucos poemas que li e gostei - dedicado a um amigo suicida - suicida, aliás, como o primo levi. que pacto é possível entre o impulso de dominar e a vontade de conhecer?
minha cabeça frita, cheia de dúvidas e idéias enquanto caminho sob esse friozinho de junho tão gostoso. dominar e conhecer. egoísmo e amor. nietzsche, descartes, primo levi, faustino, aldous huxley.
experimento me manter atento, mas sem foco definido. o silêncio e a solidão de cada coisa, esse âmago incomensurável de que falava, seu secreto nome avesso às palavras, é o abismo aonde meu olhar se precipita, voraz e ousado: cada coisa é o fruto que seduziu adão - última pedra da criação do mundo, que a todo momento se refaz, incessante. Sigo em frente, animado de discreto contentamento: todas as respostas estão ao alcance dos meus olhos.
do arquivo oculto á procura de um certo fruto.
quando aquilo que deveria ser o nosso descanso vira motivo para auto-cobranças insuportáveis, é sinal de que perdemos a noção fundamental de "diversão". o homem que gosta de futebol, mas chuta mal, gosta de ler mas não escreve bem, gosta de música e não sabe o que é sustenido, pode, apesar de tudo, se divertir jogando, escrevendo, tocando. se, em revide, nos entristecemos por encontrar um resultado aquém da genialidade, é porque não entendemos que nossa função social é outra, ou porque sonhamos em ser alguém que não somos. ou seja, um excelente médico não deve querer que seu passe de canhota esteja à altura de sua precisão clínica. caso contrário, seu lazer e sua chance de extravasar minimamente uma rotina estressante perdem-se em meio a encanações que sequer deveriam ter existido.
se damos vazão a cobranças indevidas, em lugar de nos alegrarmos com o bom cumprimento de nosso papel, perdemos de vista as nossas inúmeras qualidades, em detrimento de possíveis defeitos provocados (entre outras coisas) por uma falta de determinada aptidão. nada mais natural. ninguém é bom em tudo, e saber escolher o caminho certo é a primeira das virtudes necessárias para a felicidade. muitas pessoas são obrigadas a desistir muito tarde de um sonho quando, se orientadas a tempo, poderiam estar colhendo já os frutos da correta opção. jogadores, muitas vezes, passam por vários clubes antes de descobrirem que os milhões da profissão estão muito mal distribuídos. felizmente para os escritores de boteco e músicos de garagem o desgaste é menor. o que os permite levar uma vida dupla, a dos sonhos (ainda que sem o glamour desejado) e a real (que dá dinheiro).
podendo ganhar dinheiro e sobreviver de outra forma (às vezes até com luxos), os músicos de garagem podem aproveitar para se divertir. tendo como viver por outros meios, o escritor de boteco se diverte criando e mantendo blogs. e é nesse clima de completa displicência que, muitas vezes, os blogs e bandinhas "sem-fins-lucrativos" acabam ironicamente lucrando. foi por serem felizes clinicando, administrando, ensinando, servindo, limpando e arquivando, que muitos puderam ser felizes tocando e escrevendo. além é claro dos falsos jogadores que peladeam aos fins de tarde sem pretensão de encantar. ainda assim, vale lembrar que muitos gênios musicais de hoje tiveram, um dia, alguém que os ensinou matemática, que os serviu um bom jantar, ou que os vacinou. grandes futebolístas têm toda a carreira na mão de empresários, fisiologistas, fisioterapeutas, ortopedistas, motoristas, seguranças. escritores, se assim o são, é porque alguém um dia os ensinou o "abc", ensinou-os a colocar palavra ante palavra, a dizer e não dizer.
do arquivo oculto que pergunta: e quando não existe mais hobby? e se pergunta sobre várias outras coisas que cercam o assunto e que, de forma alguma, serão publicadas.
nossa senhora das noites errantes
que habita lugares mal-freqüentados,
que desfila uma beleza quase provisória
pela exatidão sonora das paredes sem pintura.
nossa senhora das cicatrizes,
que afaga os feridos da guerra,
que empresta pureza aos mendigos
e que rouba dos ricos a pobreza.
nossa senhora dos olhares tristes;
nossa senhora dos luares mortos;
dos cenários mortos, dos andares tortos;
nossa senhora das olheiras fundas;
nossa senhora dos vícios;
dos falsos poetas e dos vagabundos;
nossa senhora dos cheiros proibidos;
nossa senhora mãe e santa dos botecos sujos.
inventa uma vida de felicidade
num lugar distante, logo aqui ao lado;
veste uma roupa bonita, tira uma fotografia,
pensa num futuro velho e de poucas cores.
nossa senhora dos muitos amores,
rogai por nós.
do arquivo oculto que ora.
se tem duas coisas que padre não deveria (ou melhor, não tem propriedade para) opinar é sobre sexo e família. eles não têm experiência. dá no que deu. lendo o texto que constitui a "bula papal" para ingestão cavalar dos fiéis, fica a impressão que se bobear, homens e mulheres se tornarão homossexuais na primeira cochilada. isso até ofende os heterossexuais.
que o vaticano se preocupe com seus padres, ainda dá pra entender. um sujeito que é obrigado a andar de saia o dia todo desde a juventude só convivendo com homens e sendo privados do contato feminino eles têm mesmo de ficar de olho. afinal não é preciso mais do que 3 ou 4 cliques para descobrir casos de pedofilia na igreja católica. pedofilia homossexual, vamos ressaltar. isso para não citar os casos heterossexuais adultos, mais discretos e não menos comuns. é natural: desejo é vida e padre é gente. quem fez da Igreja uma organização homossexual (não no sentido, do sexo como prática, mas do sexo como gênero) foi a própria igreja, ao exigir o celibato.
tudo bem que o cristianismo romano resolva condenar o homossexualismo entre seus fiéis e proibir o sacramento do matrimônio entre homossexuais em suas igrejas. isso é um problema de quem é católico e homossexual. daí a se meter no código civil, afim proibir qualquer forma de legalização das relações homossexuais ou a adoção de crianças por qualquer casal homossexual é um coice na testa.
o grande problema todo é esse "qualquer". numa sociedade que se diz laica e democrática, onde prevalece o direito individual e o princípio da liberdade, não pode haver julgamento a priori, prévio, preventivo. não dá pra dizer que "qualquer" homossexual é incapaz de adotar uma criança. é a qualidade da família que conta para uma criança e não o sexo dos pais. se fosse assim, convenhamos, a quantidade de filhos infelizes de casamentos heterossexuais poderia levar um imbecil desses a proibir também a adoção por casais heterossexuais também. ou, se fosse um imbecil desses mais radicais, a condenar a família como instituição.
digo imbecil porque desde a invenção do andar pra frente, estatísticas são mais desacreditadas que promessa de político. é bem simples: experiências individuais por mais repetidas que sejam não dão fundamento à generalização de fatos. as experiências testam hipóteses, mas não as comprovam.
mas a igreja parou mesmo em Galileu. ao menos nesse texto. falar em "lei moral natural" ou "reta razão" hoje em dia parece coisa do museu da filosofia, algo comparável a expor relógios de sol, rodas de pedra, múmias, mapas da terra plana e outras antiguidades junto a computadores, celulares, palms, ipods e jatos com propulsão supersônica(?).
aliás, vamos até deixar o conceito de "reta razão",pra lá. só esse conceito de "lei moral natural" já é dose cavalar. é algo tão absurdo do o ponto de vista intelectual que só posso imaginar que os padres da igreja andam vendo desenhos animados demais ou freqüentando a disneylândia (hum, pensando bem, faz sentido...).
imaginar que a natureza tenha moral equivale a tentar convencer uma onça a virar vegetariana. realmente espero que nenhum padre tente...
querem um sofisma? que tal esse: se existe uma lei natural essa lei é a reprodução. supondo que homossexuais nascem homossexuais e padres são idealmente heterossexuais esterilizados pelo dogma do celibato imposto pela igreja, pergunte-se: quem então mais vai contra essa lei natural: o homossexual ou o padre?
repito, é apenas um sofisma. uma provocação sem fundamento. exatamente como o documento do vaticano. foi só para servir-lhes um pouco do próprio veneno...
mas, convém também lembrar que há outras correntes na igreja, leituras diversas e, às vezes, opostas do cristianismo. isso sem contar as outras igrejas derivadas. o meu cristianismo ideal é o da caridade mais que da castidade, do compaixão mais que do julgamento, do perdão mais do que da penitência.
o pensamento medieval desse documento abre espaço até para que instituições católicas de ensino expulsem professores homossexuais e a torcida do corinthians acabe excomungada por cantar "a benção, joão de deus" cheia de pó de arroz. melhor fariam os padres se ao invés de fazer filosofia vendo "rei leão", assistissem a "um homem de família", com nicholas cage. eles descobririam que um bom filme pode fazer mais por certos valores que muita bula papal.
do arquivo oculto indignado.
nenhuma nuvem no céu nesta sexta-feira com cara de domingo. inusitado silêncio azul - azul, sem nenhuma mancha branca que seja. uma brisa fria se insinua contratante pela manhã tímida, porém luminosa: parece vir do sul e anuncia que já é maio.
insisto em pensar em você nessas horas que mereceriam um poema carregado de esperança e afeto por tudo que é vivo. insisto, e meus olhos se acendem e o coração se aquece e já quase te vejo caminhando pelas ruas de perdizes ou do centro, o tempo quente aconchegado em teu corpo como um gato na janela.
insisto em pensar em você como um presente - desses que as crianças pedem de natal quando ainda acreditam que papai noel, além de existir, é santo milagreiro. falta-me a necessária dose de realismo para pegar o telefone e ligar. honestamente, não saberia o que dizer. o que tinha a dizer já disse - e o fiz como quem comunica uma tragédia. melhor seria se eu tivesse mandado um telegrama...
mas eu insisto em pensar. é involuntário, eu diria, sonso. e não é mentira. mas também não é verdade: quero e não quero pensar. na minha cabeça, o amor deveria ser automático, mútuo e à primeira vista. uma intensa e imediata simpatia, um desejo irremediável de estar junto. nada de sedução e conquista - que, na minha cabeça, é pura enganação. e eu, assim que te vi... bom, se eu fosse médico, não hesitaria em diagnosticar que se trata de um grave caso de amor mas, como sou pobre mortal, insisto em dar um diagnóstico bem diferente à primeira vista. e é sabido que o amor não tem cura. apenas o tempo o esfria e transmuta em formas mais brandas de afeto.
e nem é esse o problema... já tendo contraído o amor outras vezes, sei que dele não morro mais. problema mesmo é ter achado que você também sentia alguma coisa por mim... claro, alguma coisa mais, digamos assim, embaraçosa... juro que eu lia nos teus olhos algo que depois nem dei oportunidade à tua boca de negar em palavras exatas e incontestáveis - não gosto de soluções cirúrgicas: minha família tem uma firme tradição homeopática.
enfim, me incomoda mais o meu engano do que a tua indiferença. mas terá sido mesmo engano? e assim recomeço a pensar em você, feliz da vida com a minha dúvida - insolúvel enquanto houver silêncio.
e já que você não está aqui, já que agora você anda pelas ruas de perdizes ou do centro com esse sol aconchegado em teu corpo como um gato na janela, eu te digo que você foi feita pra mim e eu pra você. digo isso certo de que, quando estivermos juntos de novo, mesmo sabendo que é inevitável que você leia este texto, vou fingir que não escrevi nada disso que você já sabe. ou não! sei lá... o amor vem em surtos repentinos produzidos por um olhar, uma palavra, um gesto. e, cuidado!, é contagioso.
enfim, seja como for, musa platônica ou amor da minha vida, você é o que é: bonita, encantadora e rara - como esta manhã de sexta-feira com essa cara de domingo.
do chico bento que insiste em pensar (e em postar atrasado).
algumas vezes só as nuvens me acalmam. vê-las é meu único alívio, como se me aconchegassem entre algodões o coração de cristal. e assim me sensibilizo e acalmo. porque as nuvens ensinam que tudo passa. sim, nenhuma dessas múltiplas formas se fixará no céu como um emblema. e nisso está sua beleza. não importa se a dor foi escrita na água, na areia ou na pedra: tudo é nuvem e há de passar.
"tudo
é nuvem", repito para mim, como um aluno a decorar sua lição. mas é tão
fácil esquecê-la, porque me agarro às minhas dores como se defendesse
um patrimônio. que tolo! de um fiapo de nuvem construo tempestades e
posso fazer do céu azul mero prelúdio de mau tempo. e nem me queixar
devia, porque minhas dores não estão lavradas em pedra. são mágoas,
pequenas frustrações, ressentimentos - coisas que não me esqueço porque
ainda me apego a isso como se fosse eu. mas o que sou eu quando disso
me esqueço? nuvem...
uma nuvem de calças,
como queria maiakovsky, o imenso maiakovsky, onde tenho me refugiado
como um barco em busca de reparos. como no passado acontecia com nós
dois, antes de sermos o que hoje somos (sim, como se nos anunciássemos
aos poucos um ao outro inevitáveis) tem acontecido comigo e maiakovsky
de nos encontrarmos sem querer nos lugares e horas mais inesperados. já
nos conhecíamos, é certo, mas nunca tive com ele muita intimidade. e,
de repente, ele se torna constante como um amigo ou um irmão. mesmo
nisso, como em tudo mais, há também muito de você, porque o primeiro
presente que você me deu foram uns versos dele, ainda que por mera seqüência de cliques, que diziam:
ressuscita-me,
nem que seja porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
"tudo é nuvem" - se eu pudesse soprar essa sabedoria simples no coração das vítimas da violência mais infame, aquela que o mais forte impõe sobre o mais fraco e nele deixa impressa uma dor que só a muito custo se apaga. se eles pudessem por um momento ser mais nuvem e não se partirem. se a inebriante magia das palavras pudesse reverter primeiro a pedra em carne e depois finalmente em nuvem... sim, se eu pudesse resgatar ao menos um da dor a que se sente acorrentado, não terá sido em vão este texto, nem essas nuvens que desenham no ar maciamente sua lição: "isso também passará."
do arquivo oculto nuvem.
[post dedicado á uma grande amiga que eu não desejo que se quebre]
adorei o texto."não é a imaginação que cria o sentido; é o amor que o descobre. nós não criamos o... read more
on [a verdade de todas as coisas]